A Bandeira do Mundo (Cap. V | G.K. Chesterton em Ortodoxia)

02/07/2008 at 13:05 Deixe um comentário

A moralidade não começou com um homem dizendo a outro: “Eu não vou bater em você se você não bater em mim”; não há vestígio de uma transação semelhante. Há, sim, um vestígio de que ambos disseram: Nós não devemos bater um no outro no lugar sagrado”. Eles conquistaram a moralidade vivendo a religião. Eles não cultivaram a coragem. Lutaram pelo santuário e descobriram que se haviam tornado corajosos. Eles não cultivaram o asseio. Purificaram-se para o altar de Deus e descobriram que estavam asseados.

E foi somente quando eles criaram um dia santo para Deus que eles descobriram que criaram um feriado para os homens.

Estou apresentando estas coisas não  em sua seqüência lógica madura, mas como elas me ocorreram; essa visão ficou mais clara e nítida devido a um acidente de nossa época. Sob a sombra crescente de Iben (aqui ele fala de Henrik Ibsen um dos principais dramaturgos do século XIX. Provavelmente debatiam sobre sua peça “O Pequeno Eyolf”), surgiu uma discussão para saber se nção era belo assassinar-se. Ponderados modernos disseram-nos que não devemos dizer “pobres coitados” ao falar de alguémque explodiu os próprios miolos, pois se trata de uma pessoa invejável, que apenas explodiu os miolos devido à excepcional excelência deles. O sr. William Archer (crítico dramaturgo tamb[ém do século XIX), até sugeriu ue na idade dourada haveria máquinas automáticas cuja utilização permitiria que alguém se matasse por um centavo.

Em tudo isso eu percebi que sou totalmente hostil a muitos que se consideram liberais e humanitários. O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é pior (considerado simbolicamente) do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios; insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes; mas o suicida não; esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recursar-se a viver por ela.

Não existe nenhuma criatura no cosmos, por mínima que seja, para quem a sua morte não é um escárnio. Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta. Obviamente pode haver patéticas desculpas emocionais para o ato. Geralmente as há para o estupro, e quase sempre para o atentado a bomba. Mas quando se trata de esclarecer idéias e o significado inteligente das coisas, então, na sepultura na encruzilhada4 e na estaca cravada no corpo, há muito mais verdade racional e filosófica do que nas máquinas de suicídio do sr. Archer. Há um significado no enterro à parte de um suicida. O crime desse homem é diferente de outros crimes – pois torna até os crimes impossíveis.
Mas ou menos numa mesma época li uma solene bobagem de um livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto do mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.
Em outras palavras o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou exerce toda humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre opara que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vinculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio.
O cristianismo histórico foi acusado, não inteiramente sem razão, de levar o martírio e o asceticismo a um ponto extremo, desolado e pessimista. Os primeiros mártires cristãos falavam de morte com uma alegria horrível. Blasfemavam as belas funções do corpo, sentiam o cheio da sepultura à distancia como se ela fosse um campo de flores. Tudo isso a muitos parecia a própria poesia do pessimismo. Todavia, existe a estaca na encruzilhada para mostrar o que o cristianismo pensava do pessimista.
Esse foi o primeiro de uma longa série de enigmas que o cristianismo discutiu. E a discussão implicava uma particularidade da qual devo falar mais especificamente, sendo uma característica de todas as idéias cristãs, mas que evidentemente começou com esta discussão. A atitude cristã para com o mártir e o suicida não era o que com grande frequencia se afirma nos ensinamentos morais modernos. Não era uma questão de grau. Não que se devesse traçar uma linha nalgum ponto, com o auto-assassino exaltado caindo dentro dela e auto-assassino acabrunhado logo fora dela. O sentimento cristão evidentemente não era apenas de que o suicida estava levando o martírio longe demais. O sentimento cristão era veementemente em favor de um e furiosamente contra o outro.

mais a frente….

Surgiu na controvérsia moderna o hábito imbecil de dizer que tal e tal crença pode ser sustentada numa época, mas não em outra. Alguns dogmas, dizem, eram críveis no século XII, mas não no século XX. Alguém poderia igualmente dizer que determinada filosofia pode ser abraçada na segunda-feira, mas não se pode acreditar nela na terça. Alguém poderia também falar que determinada visão de mundo (cosmovisão) é adequada às três e meia, mas não às quatro e meia. Aquilo em que um homem pode acreditar depende de sua filosofia, não do relógio ou do século. Quem acredita numa lei natural inalterável não pode acreditar em nenhum milagre em nenhuma época.
Suponhamos, só para argumentar, que estamos falando de um caso de cura milagrosa. Um materialista do século XII não poderia acreditar nela mais do que um materialista do século XX. Mas um cientista cristão do século XX pode acreditar nela tanto quando um cristão do século XII. É simplesmente uma questão de teoria que se tem da realidade

Ortodoxia – Edição centenária 1908-2008 – Editora Mundo Cristão. Páginas transcritas: 113, 120-124.

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